A Conferência Trienal do ICOM, realizada no Dubai, de 11 a 15 de novembro, reuniu milhares de profissionais de mais de cem países, representando os cinco continentes. Durante vários dias, debates, conferências e momentos de diálogo intenso evidenciaram a vitalidade da nossa comunidade internacional e a relevância crescente dos museus na sociedade contemporânea.
O tema central da conferência, O Futuro dos Museus em Comunidades em Rápida Mudança, revelou-se particularmente pertinente e inspirador. Num mundo marcado por profundas transformações sociais, tecnológicas e ambientais, fomos desafiados a refletir de forma crítica e colaborativa sobre o papel que os museus podem, e devem, desempenhar na construção de futuros mais inclusivos, resilientes e conscientes.
A Conferência sublinhou a urgência em agir. Devemos proteger o património imaterial, não apenas preservando memórias, tradições e práticas, mas envolvendo as comunidades como protagonistas desse processo vital. É imprescindível abrir portas à juventude, reconhecendo que as novas gerações são o presente ativo dos museus, capazes de inovar, renovar linguagens e transformar formas de conhecimento. E é fundamental abraçar o potencial das tecnologias, repensando métodos, ampliando o acesso e experimentando novas formas de diálogo com os públicos. Os museus têm nas mãos as ferramentas para liderar mudanças. Cabe-nos agora transformar essa responsabilidade em ação concreta, criativa e inclusiva.
Mais do que instituições de preservação, os museus são agentes sociais essenciais: lugares de encontro, diálogo e participação democrática. Cabe-nos assumir, com determinação, o papel de promotores de diversidade, equidade e acessibilidade. É tempo de fortalecer relações com as comunidades, abrir portas a vozes múltiplas e trabalhar lado a lado com cidadãos, organizações e parceiros. Cada ação deve contribuir para que os museus sejam espaços vivos, onde se constroem pontes, se geram oportunidades e se cultivam visões partilhadas de futuro. Agir agora é garantir que os museus permaneçam não apenas relevantes, mas indispensáveis à vida social das comunidades que servem.
A Conferência demonstrou ainda como adaptação e inovação são imperativos incontornáveis. Os museus, como laboratórios sociais, têm o dever de responder aos desafios emergentes e de aproveitar as oportunidades de um contexto acelerado. Este caminho só poderá ser percorrido através do diálogo, da cooperação e do fortalecimento das redes profissionais, valores que o ICOM promove e que se manifestaram de forma exemplar neste encontro.
Neste espírito, destacou-se a atribuição do primeiro Prémio ICOM para Práticas de Desenvolvimento Sustentável em Museus, ao projeto Shared Island Stories Between Scotland and the Caribbean: Transnational Youth Exchange, do Barbados Museum e da Historical Society, que aborda desafios urgentes como a emergência climática, a erosão costeira, a vulnerabilidade juvenil e a perda de património, demonstrando o papel transformador dos museus na promoção de soluções sustentáveis.
A Assembleia Geral aprovou ainda importantes medidas e resoluções estratégicas, abrangendo sustentabilidade institucional, ética e governação, diversidade e inclusão, e atualização das orientações profissionais. Cabe-nos transformar estas decisões em práticas concretas, garantindo que a energia e o consenso do Dubai se traduzam em progressos reais.
Destaca-se a futura implementação do cartão digital de membro do ICOM, um passo decisivo rumo a uma gestão mais ágil, acessível e globalmente harmonizada. Esta inovação irá fortalecer redes internacionais, melhorar a comunicação e ampliar o envolvimento dos profissionais, refletindo a capacidade do ICOM de se adaptar aos desafios do futuro. Aprovaram-se ainda recomendações estratégicas, incentivando a capacitação dos profissionais na ação climática e nos ODS, e a criação de um comité permanente para a descolonização dos museus. Estas medidas reforçam o papel central dos museus como agentes de mudança social, ambiental e cultural, consolidando a visão do ICOM de instituições conectadas, inovadoras e comprometidas com as comunidades que servem em todo o mundo.
No mesmo contexto, foram eleitos os órgãos executivos do ICOM para o triénio 2025-2028, garantindo a continuidade de uma liderança comprometida com sustentabilidade, inclusão e inovação. Destaca-se a eleição de António Rodríguez (ICOM USA) como Presidente, cuja experiência e visão prometem fortalecer o papel do ICOM na promoção de práticas museológicas inclusivas e globais. A composição do Conselho Executivo reflete uma distribuição equilibrada entre continentes, reafirmando o compromisso do ICOM com a equidade e a valorização de múltiplas perspetivas culturais e garantindo que todas as regiões do mundo participam ativamente na definição da orientação estratégica da organização.
Portugal viu reconhecido o seu contributo internacional com a eleição de Joana Sousa Monteiro como membro ordinário do Conselho Executivo, uma distinção que reflete o seu trabalho exemplar, o reconhecimento da sua competência e a confiança da comunidade internacional no seu papel como representante ativa do nosso país. Igualmente relevante é a recondução de Mário Antas na direção do ICOM Europa, que consolida a presença portuguesa nas instâncias europeias da organização e reforça o impacto do nosso contributo no panorama museológico regional.
Não poderíamos deixar de manifestar o nosso agradecimento a Luís Raposo, cujo empenho, dedicação e visão estratégica marcaram os mandatos que assumiu na direção do ICOM Portugal, no ICOM Europa e no Conselho Executivo. O seu trabalho elevou o prestígio dos museus portugueses a nível internacional, consolidou redes de cooperação e promoveu práticas de excelência que continuarão a influenciar positivamente o setor. A sua liderança deixa um legado duradouro e reforça o compromisso de todos nós com a valorização dos museus e dos profissionais que neles trabalham.
O Museu do Ar foi escolhido para acolher o próximo simpósio do ICOMAM, o Comité Internacional para Museus de Armas e História Militar do ICOM, em finais de 2026. Este evento irá reunir especialistas e profissionais de museus de vários países, transformando o Museu do Ar num verdadeiro ponto de encontro internacional para a troca de experiências e conhecimento.
O reconhecimento destes profissionais reforça a centralidade nos museus do trabalho diário de quem os faz viver. A discussão em curso sobre a revisão do Código de Ética do ICOM assume, neste contexto, especial relevância, orientando decisões responsáveis e alinhadas com os valores de inclusão, diversidade e sustentabilidade. O ICOM Portugal reafirma o seu compromisso em participar ativamente neste processo, contribuindo para um Código de Ética renovado e relevante para o futuro do setor.
Permitam-me um agradecimento final, especial e sentido, a todos os colegas portugueses, presentes no Dubai, que tornaram esta Conferência uma experiência transformadora.
Levamos connosco inspiração, responsabilidade renovada e a convicção de que os museus são uma força viva para sociedades mais justas, abertas e inclusivas. O ICOM Portugal reafirma, assim, o compromisso de continuar a trabalhar para que os museus portugueses participem plenamente na reflexão global sobre o futuro dos museus.
Hoje, mais do que nunca, apelamos a que os museus se assumam como verdadeiros laboratórios transformadores: espaços de inovação, diálogo e inclusão, capazes de gerar impacto positivo nas comunidades. Através das suas coleções e património, da investigação e da partilha do conhecimento, permitem um melhor entendimento do passado, uma compreensão mais profunda do presente e a preparação de um futuro, mais justo, equitativo, democrático e sustentável, tanto a nível individual como coletivo.
Dubai, 16 de novembro de 2025
David Felismino
Presidente do ICOM Portugal






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