UNESCO e ICOM lançam inquérito global sobre a utilização da Inteligência Artificial nos museus
O Conselho Internacional de Museus (ICOM), em parceria com a UNESCO, lançou um inquérito global destinado a compreender melhor a forma como a Inteligência Artificial (IA) está a ser utilizada nos museus de todo o mundo. Instituições de todas as tipologias e dimensões são convidadas a contribuir, preenchendo o questionário em linha até 21 de julho de 2026.
A Inteligência Artificial está a transformar rapidamente a forma como os museus preservam, interpretam e partilham o património cultural. Desde a gestão de coleções e a investigação até à acessibilidade, à educação e ao envolvimento dos públicos, os museus de diferentes regiões do mundo começam a explorar as oportunidades e os desafios associados à utilização da IA.
Com o objetivo de compreender melhor este contexto em evolução, a UNESCO e o ICOM lançaram um inquérito global sobre a utilização da Inteligência Artificial nos museus, convidando instituições de todas as tipologias e dimensões a partilharem as suas experiências, práticas e perspetivas.
Convidamos todos os membros do ICOM Portugal e redes profissionais nacionais a divulgar amplamente esta iniciativa.
O inquérito pretende recolher exemplos concretos e dados de referência sobre a forma como os museus estão atualmente a integrar a IA nas suas atividades. Procurará igualmente analisar de que modo estas utilizações se articulam com os principais referenciais internacionais, nomeadamente a Recomendação da UNESCO sobre a Ética da Inteligência Artificial (2021) e o Código de Ética do ICOM para Museus (2004).
Ao reunir contributos de instituições de diferentes regiões e contextos, esta iniciativa visa identificar tendências emergentes, bem como necessidades prioritárias de apoio e capacitação. Disponível nas línguas oficiais da UNESCO e do ICOM, o inquérito procura assegurar uma participação internacional ampla, representativa e inclusiva.
O ICOM Portugal agradece antecipadamente o vosso apoio e colaboração.
O inquérito estará aberto até 21 de julho de 2026.
Participar no inquérito: https://ee.kobotoolbox.org/x/6vxCcN5n
Para mais informações, contacte o Secretariado do Programa de Museus da UNESCO através do endereço: sec.mus@unesco.org.
Museus a Unir um Mundo Dividido. Jornadas da Primavera. Museu de Leiria, 29 e 30 de maio 2026
Nos dias 29 e 30 de maio de 2026, o ICOM Portugal promove, em parceria com Município de Leiria e o Museu de Leiria, as suas Jornadas da Primavera, subordinadas ao tema Museus a unir um mundo dividido”, escolhido pelo Conselho Internacional de Museus para o Dia Internacional dos Museus 2026.
Num contexto internacional marcado por tensões sociais, conflitos armados, polarização política e desafios à convivência democrática, estas Jornadas propõem uma reflexão crítica sobre o papel dos museus enquanto espaços de mediação, escuta, memória e construção de diálogo. Ao longo de dois dias, profissionais de museus, investigadores e agentes culturais irão debater a responsabilidade das instituições museológicas na promoção dos direitos humanos, da participação cívica e da inclusão social.
O programa integra conferências e mesas-redondas dedicadas a questões como as narrativas da guerra e da memória, a mediação museológica em contextos de fragmentação social e as novas ferramentas de participação e diálogo com as comunidades. Participam representantes de várias instituições museológicas e académicas nacionais, num encontro que pretende fomentar a partilha de experiências, práticas e perspetivas sobre os desafios contemporâneos dos museus.
As Jornadas encerram no dia 30 de maio com visitas ao Museu de Leiria e ao Museu da Imagem em Movimento.
A participação é gratuita, mas requer inscrição prévia:
https://forms.gle/TaBdtrVNU4vkgCiK8
PROGRAMA
Versão para download:
SEXTA-FEIRA 29 DE MAIO
9h30 — Receção dos participantes
10h00 — Sessão de Abertura
Anabela Graça, Vereadora da Educação e Cultura, Município de Leiria
David Felismino, ICOM Portugal
10h20 – Museus a unir um mundo dividido
David Felismino, ICOM Portugal
10h40 – Pausa café
11h00 – Painel Museus, Memória e Direitos Humanos: Narrativas de Conflito, Resistência e Paz
Moderação: Raquel Barata, ICOM Portugal
- RESIST. Rede de Lugares da Resistência à Ditadura, Aida Rechena, Museu Nacional Resistência e Liberdade – Peniche
- Museu Aristides de Sousa Mendes – Preservar a Memória e Agitar Consciências, Joana Pais e Bruno Elias, Museu Aristides de Sousa Mendes
12h00 – Debate
12h30 – Almoço livre
14h00 – Mesa-redonda Entre conflito e diálogo: a mediação museológica num mundo fragmentado
Moderação: Inês Bettencourt da Câmara, Mapa das Ideias
Oradores:
Ana João Macatrão, Museu Nacional Resistência e Liberdade – Peniche
Ana Margarida Campos, Museu de Lisboa
Bruno Elias, Museu Aristides de Sousa Mendes
Inês Fialho Brandão, Museu Calouste Gulbenkian
Margarida Moleiro, Centro Humberto Delgado
15h30 – Pausa café
16h00 – Mesa-redonda O Museu Está Realmente a Ouvir? Novas ferramentas para um diálogo sem fronteiras
Moderação: Joaquim Jorge, Universidade Autónoma de Lisboa/Instituto Politécnico de Tomar
Oradores:
Ana Moderno, Museu da Comunidade Concelhia da Batalha
Conceição Macieira, Rede de Museus Municipais de Loures
Joana Simões Piedade, CES – Universidade de Coimbra
Tânia Reis, Museu da Chapelaria – São João da Madeira
Vânia Carvalho, Igreja da Misericórdia – Centro de Diálogo Intercultural de Leiria
17h30 – Encerramento
Joana Sousa Monteiro, ICOM
David Felismino, ICOM Portugal
Vânia Carvalho, Museu de Leiria
SÁBADO 30 DE MAIO
9h30 – 12h00
Visitas Museu de Leiria e Museu da Imagem em Movimento – M|i|mo
Mediante inscrição prévia: https://forms.gle/TaBdtrVNU4vkgCiK8

Museus a Unir um Mundo Dividido. Dia Internacional dos Museus 2026. Mensagem do Presidente.
No dia 18 de maio, assinalamos, uma vez mais, o Dia Internacional dos Museus, uma iniciativa promovida pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) que mobiliza instituições e profissionais em todo o mundo em torno do papel fundamental dos museus na sociedade contemporânea.
O tema deste ano, Museus a Unir um Mundo Dividido, interpela-nos de forma particularmente exigente. Num contexto global marcado por tensões sociais, desigualdades persistentes, conflitos armados e polarizações culturais, os museus são chamados a afirmar-se como verdadeiros espaços de encontro, diálogo e construção de sentidos partilhados.
Enquanto instituições ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, os museus têm a responsabilidade de promover o acesso equitativo ao património, valorizar a diversidade cultural e fomentar o pensamento crítico. São lugares onde se cruzam memórias, identidades e narrativas, contribuindo para o reconhecimento mútuo e para o reforço da coesão social.
As memórias não se limitam à evocação do passado, constituem antes um compromisso ético com o outro e com o tempo. Recordar é sempre um ato situado, atravessado por escolhas, interpretações, tensões e silêncios que moldam a forma como nos compreendemos enquanto sociedade. Mais do que espaços de conservação, os museus são lugares onde a memória coletiva se constrói, se interroga e se partilha. Ao definirem o que recordar e de que forma o fazer, os museus participam ativamente na configuração do espaço público contemporâneo.
Para que esta missão se cumpra plenamente, torna-se essencial o trabalho direto com a sociedade e com as comunidades, na sua diversidade. Os museus não podem limitar-se a representar, devem dialogar. Não podem apenas expor, devem escutar. Não podem apenas falar sobre, devem construir com. É neste encontro com a diversidade que a memória coletiva se adensa, ganha legitimidade e se abre ao exercício do pensamento crítico. É também aqui que o museu se afirma como espaço de participação e de liberdade, onde diferentes vozes encontram lugar e onde a pluralidade não se esgota no reconhecimento, mas se traduz em valorização efetiva.
Os jovens têm, neste contexto, um papel central. É essencial reconhecer o potencial dos museus como espaços de aprendizagem, participação e descoberta, tanto na educação formal como na não formal. Para isso, importa garantir que todas as escolas públicas dispõem de condições para que os alunos possam frequentar os museus de forma regular, ativa e significativa. Os museus devem fazer parte do percurso educativo das crianças e dos jovens, oferecendo experiências que estimulem a curiosidade, o pensamento crítico e o contacto com diferentes realidades e perspetivas. Ao abrirem espaço ao conhecimento, ao diálogo e à participação, os museus ajudam a formar cidadãos mais conscientes, informados e envolvidos na vida democrática.
Neste processo, joga-se igualmente uma dimensão decisiva: a vitalidade da própria democracia. A diversidade de perspetivas e a liberdade de expressão não são apenas condições desejáveis, mas fundamentos estruturantes de uma sociedade verdadeiramente democrática. Sem elas, a memória enfraquece, o debate empobrece e o espaço público perde densidade e energia. Ao promoverem o acesso ao conhecimento, ao estimularem o pensamento crítico e ao acolherem a diferença, os museus contribuem de forma concreta para a consolidação destes valores. Não apenas enquanto instituições que guardam o passado, mas como agentes ativos na construção de uma cidadania mais informada, mais consciente e mais participativa.
Os museus, nas suas diferentes tutelas, escalas e geografias, têm vindo a desenvolver práticas cada vez mais inclusivas, participativas e socialmente comprometidas. Este caminho, no entanto, deve ser aprofundado, reforçando a capacidade dos museus para escutar, representar e envolver comunidades diversas, incluindo aquelas que historicamente permaneceram afastadas destes espaços.
Unir um mundo dividido não significa procurar consensos fáceis. Significa criar condições para o entendimento. Significa aceitar a complexidade como matéria do pensamento. Significa reconhecer que a liberdade se constrói sempre em relação com o outro, não recusando a tensão nem ignorando o trauma, mas reconhecendo-os como parte constitutiva da experiência humana e da própria memória coletiva.
Neste horizonte, os museus são chamados a ir mais longe. São desafiados a aprofundar o trabalho com as comunidades, tornando-o estrutural. São desafiados a integrar vozes diversas, incluindo aquelas que historicamente permaneceram à margem. São desafiados a acolher o conflito como parte do processo de conhecimento. São desafiados a interrogar as suas próprias narrativas, reconhecendo ausências e silêncios. São desafiados a assumir plenamente a sua função cívica.
Nas vésperas deste Dia Internacional dos Museus, renovemos um compromisso: fazer do museu um lugar de encontro, de diálogo e de construção partilhada. Um lugar capaz de unir sem simplificar, de recordar sem impor e de abrir caminhos para futuros comuns.
Num tempo exigente, em que as expectativas se multiplicam e os recursos nem sempre acompanham a ambição do trabalho, importa reconhecer a natureza profundamente transformadora da ação dos profissionais de museus. Cada projeto, cada mediação, cada gesto de escuta contribui para aproximar pessoas, dar sentido ao passado e construir futuro.
Que não nos falte a coragem para experimentar e para questionar. Que não nos falte a exigência ética de fazer da memória um espaço de justiça. E que não nos falte a convicção de que este trabalho faz diferença na vida das comunidades, na qualidade do debate público e na vitalidade da democracia.
Porque, no fim, unir um mundo dividido começa muitas vezes em gestos discretos e quotidianos, mas profundamente significativos. E é nesses gestos, por vezes quase invisíveis, mas sempre essenciais, que os museus se afirmam também como lugares de paz. Ao acolherem memórias diversas, ao darem forma ao encontro entre diferenças e ao transformarem a complexidade em compreensão, abrem espaço ao desarme dos preconceitos e à construção paciente de pontes onde antes havia distância.
A paz não é apenas ausência de conflito: é um trabalho contínuo de reconhecimento, escuta e relação. E os museus, pela sua natureza singular, pela densidade do seu trabalho e pela sua responsabilidade pública, estão no coração desse movimento silencioso e necessário de construção de paz.
Feliz Dia Internacional dos Museus.
Lisboa, 13 de maio 2026
David Felismino
Presidente do ICOM Portugal
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ICOM Portugal participa em debate sobre património industrial e científico na NOVA FCT
No próximo dia 12 de maio, o ICOM Portugal participará numa mesa-redonda integrada na sessão de apresentação do novo Mestrado em Património Industrial e Científico, promovido pela NOVA FCT. A iniciativa decorrerá entre as 10h00 e as 12h30, no Auditório Manuel Machado Macedo da NOVA Medical School, em Lisboa.
A participação do ICOM Portugal será assegurada por David Felismino, integrando um painel de especialistas que inclui também Marta Lourenço (Museu Nacional de História Natural e da Ciência), Graça Filipe (NOVA FCSH e EPPIC) e Soraya Genin (ICOMOS Portugal). A moderação estará a cargo de Isabel Tissot (NOVA FCT).
O debate incidirá sobre três eixos principais: as prioridades estratégicas para a preservação do património industrial e científico em Portugal, os modelos de articulação institucional e políticas públicas, e o papel da formação especializada como resposta estruturante aos desafios do setor.
O património industrial e científico tem vindo a afirmar-se como um domínio de crescente relevância no campo dos estudos patrimoniais. Contudo, subsistem fragilidades significativas, tanto ao nível do enquadramento institucional como da existência de instrumentos normativos específicos, particularmente no caso do património científico. Este contexto evidencia a necessidade de reforçar a formação avançada, promover a produção de conhecimento e consolidar redes de cooperação entre academia, instituições e decisores públicos.
É neste quadro que a NOVA FCT lança o novo ciclo de estudos, visando colmatar lacunas existentes e contribuir para a qualificação de profissionais nesta área.
A sessão inclui ainda a apresentação detalhada do mestrado, a cargo de Paula Urze (coordenadora do curso) e Márcia Vilarigues (NOVA FCT), antecedida por uma sessão de abertura conduzida por José Júlio Alferes, Diretor da NOVA FCT.
A entrada é gratuita, mediante inscrição prévia obrigatória: https://bit.ly/4w2HiLv
Para saber mais sobre o novo Mestrado: https://www.fct.unl.pt/ensino/curso/mestrado-em-patrimonio-industrial-e-cientifico
PROGRAMA
09h30 Recepção dos participantes
10h00 Sessão de abertura José Júlio Alferes – Diretor da NOVA FCT
10h15 Mesa-redonda
Moderação: Isabel Tissot (NOVA FCT)
Marta Lourenço (Museu Nacional de História Natural e da Ciência) Graça Filipe (NOVA FCSH e EPPIC) David Felismino (ICOM PT) Soraya Genin (ICOMOS PT)
12h00 Apresentação do Mestrado em Património Industrial e Científico e sessão de esclarecimento Paula Urze (NOVA FCT) – coordenadora do Mestrado Márcia Vilarigues (NOVA FCT)
12h30 Encerramento
Valorizar os profissionais, reforçar os museus: um compromisso com o futuro
Assinalaram-se, nesta semana, duas efemérides que convocam uma reflexão necessária sobre a situação dos profissionais de Museus e do património cultural: o 29 de abril, Dia Nacional do Museólogo, comemorado desde 2023 por iniciativa da Associação Portuguesa de Museologia (APOM), e o 1 de maio, Dia do Trabalhador. A proximidade destas datas sublinha a interdependência entre a valorização do trabalho especializado e a missão pública dos museus enquanto instituições ao serviço da sociedade e guardiãs do património cultural.
A valorização da formação, das condições de trabalho e das carreiras dos profissionais de Museus constitui um requisito estruturante para a sustentabilidade, qualidade e credibilidade das instituições museológicas. Apesar do reconhecimento reiterado desta necessidade, persistem fragilidades estruturais profundas e transversais ao setor que importa enfrentar com urgência.
Nas últimas décadas, no ensino superior português, assistiu-se à consolidação da Museologia enquanto área científica autónoma, com ciclos de estudos próprios e em alinhamento com referenciais internacionais. Contudo, mais recentemente, tem-se verificado uma tendência de integração ou subalternização da Museologia no âmbito de formações mais abrangentes, como a História da Arte e o Património.
O ICOM Portugal manifesta preocupação perante esta situação, frequentemente associada a constrangimentos institucionais ou opções de racionalização, correndo-se o risco de diluição da especificidade da Museologia, com impacto na qualidade da formação, na consolidação de competências e no reconhecimento profissional.
Esta realidade articula-se com a necessidade de reforço da formação contínua ao longo das carreiras. Num contexto de rápida transformação, a atualização permanente de competências é indispensável. No entanto, a formação contínua permanece frequentemente fragmentada e pouco estruturada, com fraca oferta regular, limitada capacidade de financiamento e desigual acesso entre profissionais, o que compromete a inovação e a mediação com a sociedade.
No plano das carreiras, subsistem problemas estruturais há muito identificados. Em todos os museus, independentemente da tutela, persistem equipas em número insuficiente face às funções exigíveis, o que prejudica o cumprimento das atribuições previstas na Lei-Quadro dos Museus Portugueses (Lei n.º 47/2004). Esta realidade decorre de um subfinanciamento crónico do setor, agravado pela crescente pressão turística e pela exigência de diversificação de públicos, em contraste com o papel central do património cultural na economia, no turismo e na projeção internacional do país.
À semelhança de outras áreas com níveis comparáveis de qualificação e responsabilidade, verifica-se que as propostas salariais praticadas no setor museológico permanecem, em muitos casos, aquém do que seria expectável, mesmo em contextos onde se verifica a existência de modelos de gestão com maior autonomia, como o das entidades públicas empresariais e das fundações.
Os profissionais continuam, em grande medida, enquadrados em carreiras generalistas, desajustadas às especificidades das funções, o que dificulta o reconhecimento de competências e a construção de percursos profissionais claros. Acresce a falta de revisão dos conteúdos funcionais e a inadequação dos perfis profissionais face às exigências atuais do setor, incluindo competências digitais, de mediação cultural e de gestão de públicos. No plano local, a frequente ausência de quadros próprios e de direções técnicas autónomas em muitos museus municipais fragiliza a continuidade do trabalho e a aplicação de critérios técnicos consistentes.
A insuficiente renovação geracional das equipas constitui outro fator crítico, colocando em risco a transmissão de saberes e a continuidade técnica. Este cenário, nos museus públicos, é agravado por dificuldades de contratação, congelamento ou morosidade dos recrutamentos e dos concursos, levando à saída de profissionais qualificados para outros setores ou até, por vezes, para o estrangeiro afetando diretamente a salvaguarda e valorização das coleções.
Acresce a persistente desvalorização das funções de acolhimento do público, frequentemente porta de entrada no setor. Integradas maioritariamente na carreira de assistente operacional, estas funções, essenciais ao funcionamento dos museus, caracterizam-se por baixos níveis remuneratórios, escassa progressão e condições pouco atrativas, a par de oferta formativa muito reduzida. Em muitos casos, estas funções são externalizadas ou asseguradas em regimes precários, tal como a mediação cultural, contribuindo para a fragmentação das equipas e a perda de identidade institucional. Este quadro perpetua a precariedade de uma geração altamente qualificada e compromete a retenção de talento.
Reconhecendo que um eventual regresso a carreiras específicas se afigura, no contexto atual, pouco provável, impõe-se atuar no quadro existente. O ICOM Portugal defende uma melhoria das condições salariais e de trabalho deve constituir uma prioridade estratégica, assegurando a atratividade do setor e a permanência qualificada dos profissionais.
Importa igualmente valorizar o ambiente organizacional, o bem-estar das equipas e a autonomia das instituições, frequentemente condicionadas por ciclos políticos. A instabilidade das direções, a rotatividade de responsáveis e a dependência de decisões político-administrativas de curto prazo, comprometem o planeamento estratégico, a autonomia técnica e a qualidade do serviço público, traduzindo-se em descontinuidade, dificuldades na conservação das coleções e limitações na participação em redes e projetos.
A persistência destes problemas não pode ser normalizada. A valorização dos profissionais é condição essencial para o cumprimento da missão dos museus enquanto espaços de preservação, conhecimento, mediação e cidadania.
Os riscos são claros. No plano das coleções, a falta de recursos qualificados e a instabilidade das equipas comprometem a conservação, o estudo e a salvaguarda do património, podendo conduzir à perda irreversível de conhecimento. No plano da relação com a sociedade, estas fragilidades limitam a qualidade da mediação, da experiência de visita e dos processos educativos, podendo traduzir-se numa diminuição da relevância social dos museus e na erosão da confiança pública.
Sem profissionais qualificados, motivados e devidamente reconhecidos, não é possível garantir museus inclusivos, acessíveis e socialmente relevantes, nem assegurar a proteção e valorização do património cultural. O futuro do setor depende da capacidade de enfrentar problemas estruturais que persistem há demasiado tempo.
O ICOM Portugal reafirma o seu compromisso com a valorização dos profissionais de Museus, cujo trabalho é essencial à missão museológica. Valorizar estes profissionais é uma escolha estratégica para o futuro cultural do país.
É tempo de passar do diagnóstico à ação. Torna-se imperativa a definição e implementação de uma agenda estratégica para o setor museológico, assente em financiamento estável e previsível, na valorização remuneratória e na revisão das carreiras, na consolidação de modelos estruturados de formação contínua e no reforço da autonomia e estabilidade dos modelos de gestão. Importa igualmente assegurar um investimento consistente na capacitação digital, na mediação cultural inclusiva e no aprofundamento das redes de cooperação entre museus, instituições de ensino superior e comunidades.
Num contexto de crescente reconhecimento do valor do património cultural, a valorização dos profissionais do setor constitui uma condição indispensável para a sustentabilidade e qualidade do serviço público museológico. O futuro dos museus exige políticas públicas consistentes, coerentes e sustentadas.
Importa ainda garantir que os profissionais altamente qualificados em Museologia disponham de condições compatíveis com a sua formação e competências, assegurando que as funções técnicas são desempenhadas por perfis devidamente especializados. Este alinhamento contribui para reforçar a equidade, valorizar os percursos profissionais e elevar os padrões de qualidade e exigência do setor.
Valorizar os profissionais de museus é investir na memória coletiva, na coesão social e no crescimento económico, afirmando a Cultura como dimensão estruturante do projeto de desenvolvimento do país.
É também reconhecer, com clareza, que são estes profissionais que dão sentido, continuidade e futuro aos museus, e que, através do seu trabalho quotidiano, constroem pontes entre o passado, o presente e as gerações vindouras.
Lisboa, 1 de maio 2026
David Felismino
Presidente do ICOM Portugal
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