Nota pública do ICOM Portugal sobre a importância do património industrial

Posted by on Jan 7, 2026 in Destaques, Notícias

Nota pública do ICOM Portugal sobre a importância do património industrial

O ICOM Portugal manifesta a sua profunda preocupação face à situação do património industrial, científico e técnico em Portugal, novamente evidenciada na recente notícia, a 5 de janeiro de 2026, pelo jornal Público[1], com contributos da historiadora e museóloga Graça Filipe, que volta a expor a fragilidade, o abandono e a perda continuada deste importante legado cultural.

A inexistência de políticas culturais públicas consistentes e integradas, bem como a ausência de um inventário nacional atualizado e de estratégias de salvaguarda eficazes, têm contribuído para o esquecimento, o abandono e a desvalorização sistemática deste património. 

Nas últimas décadas, foram desenvolvidos diversos inventários a nível local e regional, bem como investigação que abrange quase na totalidade o território nacional e as principais áreas geográficas da industrialização no nosso país. Estes inventários e estudos identificam edifícios, objetos e práticas representativas do património industrial. Não obstante o vasto conhecimento produzido, não se evitou o abandono e o desaparecimento de muitos destes bens, fruto da incúria e desconhecimento tanto das administrações locais e nacionais como de proprietários privados. 

Torna-se, portanto, urgente a realização de um inventário nacional rigoroso do que ainda sobrevive, de modo a garantir a proteção e valorização efetiva do património industrial que permanece, mas que carece de reconhecimento e salvaguarda adequada.

Portugal possui um património industrial singular, de elevado valor histórico e científico, que se destaca não apenas a nível nacional, mas também no contexto europeu e internacional. Apesar da sua relevância ímpar, grande parte deste legado carece de reconhecimento formal e proteção adequada, nomeadamente através da sua classificação de âmbito nacional e/ou local.

Fábricas, infraestruturas, equipamentos, arquivos, paisagens e territórios industriais, fundamentais para a compreensão da história contemporânea do país, encontram-se, em muitos casos, sem proteção adequada e em risco iminente de acelerada degradação, abandono prolongado, ignorância institucional e, em situações particularmente graves, de destruição intencional, com perdas irreversíveis para a memória coletiva e para o conhecimento histórico e técnico.

A falta dessa tutela compromete não só a preservação física destes bens, mas também a salvaguarda do conhecimento que representam para a história da indústria, da tecnologia e da sociedade em Portugal e no mundo. Assim, é fundamental promover a identificação, classificação e valorização deste património, garantindo que ele seja preservado e integrado nas políticas culturais e de desenvolvimento territorial.

O património industrial, científico e técnico possui um valor histórico, social, cultural e económico inquestionável. Constitui um testemunho central dos processos de industrialização, das práticas científicas e tecnológicas, das dinâmicas do trabalho e da transformação dos territórios e das comunidades. 

Falar de património industrial é, por isso, falar também de história social, económica e cultural. É abordar as condições de vida e de trabalho, as relações sociais, os saberes e as práticas que moldaram o quotidiano de gerações. É igualmente falar de história da arte, do design e da moda, áreas profundamente marcadas pela produção industrial, pela inovação técnica, pela cultura material e pelas linguagens estéticas associadas às fábricas, aos produtos e aos seus contextos de criação e consumo.

A sua preservação é essencial para a investigação, a educação, a museologia e para estratégias de desenvolvimento sustentável, incluindo o turismo cultural e industrial. Neste contexto, importa sublinhar que a valorização deste património contribui para a criação de emprego qualificado, para a dinamização das economias locais e regionais e para a diversificação da oferta cultural e turística.

Simultaneamente, desempenha um papel fundamental na educação formal e não formal, promovendo a literacia científica e tecnológica, o pensamento crítico e a compreensão dos processos históricos que moldaram a sociedade contemporânea.

O ICOM Portugal sublinha que a perda deste património representa não apenas o desaparecimento de bens materiais, mas também a erosão da memória coletiva, do conhecimento técnico e da identidade cultural. 

Esta situação dramática contrasta com as boas práticas adotadas noutros contextos europeus, onde o património industrial e científico é reconhecido como parte integrante das políticas patrimoniais e museológicas.

Neste contexto, o ICOM Portugal reafirma a necessidade urgente de:

1- Reconhecer formalmente o património industrial, científico e técnico como uma prioridade das políticas culturais nacionais;

2- Desenvolver um inventário nacional sistemático e atualizado do património existente;

3- Implementar estratégias de salvaguarda, valorização e reutilização sustentáveis, nomeadamente através de um plano nacional para o património industrial;

4- Promover a articulação entre instituições culturais, científicas, educativas e os territórios.

A salvaguarda deste património constitui uma responsabilidade coletiva e um compromisso estruturante com a compreensão do passado, a qualificação do presente e a construção do futuro. A proteção deste legado assume-se, assim, como um dever de responsabilidade intergeracional, reforçando o sentido de pertença, a coesão social e a sustentabilidade cultural e territorial. Paralelamente, importa reconhecer o seu relevante valor económico, enquanto ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável, capaz de gerar valor, emprego qualificado e dinâmicas económicas locais e regionais. 

É na articulação entre preservação, valorização e uso responsável que reside a efetiva capacidade de transmissão deste património às gerações futuras e o juízo que a história fará sobre o compromisso da sociedade contemporânea com a sua herança comum.

David Felismino 

Presidente do ICOM Portugal

Lisboa, 06 de janeiro 2026

Descarregue a versão da nota pública:


[1] https://www.publico.pt/2026/01/05/local/noticia/patrimonio-industrial-esquecido-pais-ignora-historia-industria-2159117

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